Eu não lembro exatamente quando foi, mas há um tempo um jogo chamado "Exit 8" (8番出口 , 8ban deguchi em japonês) ficou bem famoso na internet e vários youtubers - inclusive brasileiros, como o Alanzoka - fizeram gameplay dele em seus canais.
Se eu não me engano, o jogo lançou em 2023, e no ano passado ganhou essa adaptação em filme, que só foi lançado aqui no Brasil este ano. Assim como outros filmes japoneses, eu tive a impressão que ele não teve muita divulgação, e não é à toa que eu quase perdi a chance de assistir no cinema. Mas deu tempo, então vou falar sobre ele aqui hoje.
O Exit8 original é um jogo em primeira pessoa que se passa no metrô de Tóquio. Ele não tem uma história nem uma narrativa, você só precisa achar a saída do metrô, teoricamente. O que acontece na verdade, é que o seu personagem precisa encontrar as diferenças que aparecem dentro da estação para chegar até a saída número 8. É um jogo que você tem que prestar bastante atenção nos detalhes e nas diferenças que aparecem, porque cada mínimo elemento que você perde te faz voltar para a saída 0.
A adaptação que veio para os cinemas seguiu basicamente essa premissa, com o nosso protagonista chamado de O Homem Perdido, interpretado pelo Kazunari Ninomiya — ele mesmo, o membro do ARASHI.
A ideia do filme é basicamente adaptar o jogo, então ele já começa com o personagem do Ninomiya, um cara comum, andando de metrô e chegando na estação até ficar preso dentro da estação de Tóquio.
A princípio, a história não é complexa, e talvez por isso mesmo ele não agrade todo mundo, principalmente quem não conhece a obra original. Mas mesmo assim, eu achei que foi uma boa adaptação, principalmente conhecendo o jogo.
Isso porque Exit8 começa focando no personagem do Homem Perdido, mas depois ele também mostra um pouco de outros personagens que aparecem como figurantes/NPCs e como eles também ficaram presos no metrô, coisa que não é abordada no jogo. Provavelmente o mais icônico dos personagens é o homem assalariado que sorri e que também tem um background, mínimo, mas tem. Nesse ponto eu achei bem legal. A atuação do garotinho que também se perde e acaba ficando com o Ninomiya também foi algo que me agradou. Ele tem poucas falas, mas isso é o suficiente para você simpatizar com ele.
Esse longa também tem cenas de jumpscare que para mim foram um pouco perturbadoras — mas isso é porque eu não gosto de levar susto —, mas eu gostei que eles também foram mostrando as diferenças do metrô de um modo mais sutil no começo e depois foi escalonando para um jeito mais grotesco. Se eu não me engano, o jogo também é meio assim, apesar de não terem adaptado todas as cenas das anomalias. Com certeza a que eu menos gostei foi a cena que apareciam ratos e uma mais pro final do filme que eu não vou mencionar para não dar muito spoiler.
Outra coisa que me incomodou um pouco — no sentido bom —, foi o silêncio. Mas eu acho que isso é de propósito para criar um pouco de tensão. O filme todo se passa dentro da estação basicamente vazia, tirando as poucas pessoas que ficaram presas lá dentro como o Nino. Para mim, isso gerou um clima que traz um desconforto e uma expectativa por não ter muito ruído, nem saber o que pode acontecer, nem qual é a próxima anomalia. Por isso que eu também senti que os sustos foram mais eficientes. A iluminação do filme também é uma coisa que ajudou bastante nesse ponto.
Mas o filme não fala só sobre as anomalias. Os personagens também têm um pouco do seu brilho ali. O Homem Perdido é um assalariado preso em uma rotina cansativa e que está prestes a ser pai de um filho com a ex-namorada. O fato dele estar preso no metrô também é um ponto que pesa muito no psicológico, pois além de trazer uma pressão dele ter que sair logo dali, esse contexto faz com que a frustração e a culpa por cada falha pesem ainda mais, já que qualquer erro o faz voltar para a primeira saída. Pessoalmente eu senti que isso também conversa e transmite bem muito a pressão psicológica, a ansiedade e a tensão de alguém estar desesperado tentando fazer "tudo certo".
Os outros personagens também têm alguns backgrounds que meio que explicam por que eles ficaram presos ali. Inclusive alguns ficaram como um tipo de "punição", e por isso o looping do metrô talvez até sirva como um tipo de "purgatório" para fazer eles refletirem sobre seus sentimentos e suas ações até finalmente conseguirem encontrar a verdadeira saída.
Apesar de Exit 8 ser basicamente essa repetição, isso não acabou sendo incômodo, exatamente porque você acaba se envolvendo tentando achar as anomalias junto do personagem. Tanto que o pessoal que estava na sessão também tentava achar as diferenças, e todo mundo meio que ficava sussurrando para o protagonista onde elas estavam. Eu também achei que foi bem interessante como os personagens mostram essa frustração de não conseguir sair do lugar e a culpa que eles sentem mesmo tentando fazer tudo certo.
Mesmo eu não sendo muito do terror psicológico, do suspense e não gostar da sensação constante de desconforto, acho que Exit 8 funciona muito bem, principalmente pela atmosfera e pela atuação do Ninomiya. Conhecendo ou não o jogo, acho que vale a pena pelo menos dar uma chance — apesar de eu não saber que ainda existem sessões no cinema, já que eu precisei assistir ao filme numa sessão durante a semana e à noite. Mas, caso ele venha para algum streaming, fica a dica.
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