Acho que pouca gente não deve saber sobre os filmes que saíram para concorrer ao Oscar. Pois bem, hoje eu vou falar de Kokuho, filme dirigido por Lee Sang-il e baseado num romance do autor Shuichi Yoshida.
Para ser bem sincera, eu estava muito a fim de assistir esse filme. Ele foi um grande sucesso no Japão, e não só minhas amigas de lá foram assistir, como também vários artistas que eu acompanho, e todos falaram muito bem sobre ele. O filme lançou no meio do ano passado, mas aqui no Brasil ele só chegou agora em março e com sessões limitadíssimas.
Nesse longa, nós acompanhamos Kikuo, um garoto filho de um yakuza que teve o seu pai assassinado. Inicialmente, ele pretendia vingar seu pai, mas tudo muda quando ele é adotado por um dos grandes nomes do kabuki, fazendo com que o seu desejo de vingança dê lugar ao sonho de se tornar um dos maiores intérpretes de kabuki da época.
Primeiramente, acho que não tem como negar que a maquiagem desse filme é linda. Não só a parte da maquiagem, mas todo o figurino e as performances do teatro kabuki são elementos que fazem você não conseguir tirar os olhos da tela.
Eu particularmente nunca tinha assistido a uma apresentação de kabuki antes, e juro que depois de assistir Kokuho, a minha vontade é de ir ao Japão e presenciar isso ao vivo. Se no cinema eu já me emocionei, mal imagino como deve ser ver isso com os próprios olhos.
Uma outra coisa que eu gostei muito nesse filme é como ele mostra o quanto um artista se dá e até que ponto ele chega pela sua arte e pela sua forma de expressão. Eu lembro quando Kokuho lançou no Japão no ano passado e não só várias amigas minhas do Japão comentaram sobre ele, como também os dubladores que eu acompanho por lá. E sinceramente, acho que eu entendi o porquê deste longa ter sido tão falado pelo Japão.
Inclusive, o próprio nome do filme dialoga bastante com essa ideia. O termo "Kokuho" (国宝) significa "Tesouro Nacional", e ele é usado no Japão para designar bens culturais extremamente importantes. Dentro desse contexto, o filme parece sugerir que os artistas e as tradições como o kabuki também são parte desse patrimônio cultural — o que faz muito sentido.
Apesar de no começo Kokuho parecer uma história sobre vingança, uma das coisas que eu fiquei pensando muito enquanto assistia foi naquela frase que diz: a arte salva. E literalmente foi isso que eu senti aqui, pois foi o kabuki que fez com que o protagonista desistisse de seguir esse caminho e fosse expressar de uma outra maneira.
Para mim, uma das coisas mais interessantes também, foi que Kokuho não mostra somente a parte do kabuki e o esplendor. O fato de apresentar toda a trajetória do protagonista desde a infância até a sua saída dos palcos, e tudo que ele precisou sacrificar para chegar até o topo, provavelmente é o que faz esse filme, para mim, ser tão bom. Isso fez com que eu não só tivesse uma conexão com o personagem, mas fez com que assistir à sua performance depois fosse muito mais emocionante. Emocionante a ponto de me fazer chorar.
Diferentemente de filmes ocidentais, principalmente os estadunidenses que a gente está acostumado a assistir com mais frequência, em Kokuho os sons, seja das músicas ou dos próprios movimentos do artista são muito claros e precisos.
E não só isso, mas tem cenas muito silenciosas — coisa que me lembrou o Perfect Days. Talvez, isso seja algo um pouco estranho, principalmente quando você está muito acostumado com obras mais "barulhentas". Mas eu acho que exatamente por isso que funciona tão bem. O que precisa ser dito está lá sendo dito sem precisar de nenhum tipo de exagero.
A atuação do protagonista também foi incrível. Não só durante a trajetória do crescimento do Kikuo, mas ver a sua evolução enquanto ele se constrói como artista e todo o treinamento pelo qual teve que passar desde a infância foi algo que me deixou bem impactada.
Isso me fez pensar que realmente não temos noção do quanto de esforço e perseverança são necessários para fazer uma performance. Inclusive, parece que o ator que interpretou o Kikuo na adolescência até comentou que ele treinou por um ano e meio e mesmo assim não se sentiu acostumado. Se para o ator deve ter sido difícil, imagina na vida real.
Inclusive, foi por isso também que eu sinto que entendi um pouco o motivo desse longa ter ficado tão falado dentro do meio dos atores e artistas de voz lá no Japão. Acho que para eles, assistir uma representação nesse nível deve ter sido tão impactante quanto para mim.
Dito isso, acho que não tem como não recomendar Kokuho. Apesar do filme ter aproximadamente 3 horas de duração, você mal sente o tempo passar. E mesmo para quem não leu o livro como eu, o filme consegue transmitir toda a beleza, disciplina e emoção por trás do kabuki. No fim, a trajetória de Kikuo faz com que o próprio título do filme faça ainda mais sentido: uma história que celebra a arte e aqueles que dedicam a própria vida a preservá-la — a ponto de se tornarem verdadeiros tesouros nacionais.
E sinceramente, assistir esse filme só me deixou com mais vontade de um dia assistir a uma apresentação de kabuki ao vivo no Japão.
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