quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Review: Tsugumi - Banana Yoshimoto

    Há algum tempo tinham me falado sobre um livro de uma escritora chamada Banana Yoshimoto. A autora possui diversas obras traduzidas para o português do Brasil e é conhecida por criar histórias delicadas, que misturam melancolia, cotidiano e emoções silenciosas.

    No livro que vou comentar hoje, Tsugumi, Yoshimoto explora temas como amizade, juventude e a fragilidade da vida através de uma personagem tão cruel quanto vulnerável.



 SinopseDeixar para trás o lugar onde se viveu durante toda a vida não é fácil. Podemos abandonar nossa terra natal, mas a terra natal nunca sai de nós. É esse o sentimento que vem experimentando Maria Shirakawa, a personagem-narradora deste Tsugumi. Recém-instalada em Tóquio para iniciar a vida universitária, Maria ainda não se desconectou por completo da paradisíaca cidade litorânea na península de Izu, onde, desde pequena, crescera na companhia das primas Yoko e Tsugumi.

Dona de beleza hipnótica, Tsugumi padece de uma doença crônica, que a mantém em permanente risco de vida. A saúde debilitada, no entanto, não inibe uma personalidade despótica e cruel: a delicadeza é algo que passa longe de seu repertório de virtudes. Para conviver com Tsugumi, doses cavalares de paciência e resignação são recomendáveis — Maria Shirakawa que o diga, bem como quem mais se colocar em seu caminho.

O relacionamento ao mesmo tempo afável e tortuoso entre as primas será testado nas próximas férias de verão, quando Maria aceita o convite de Tsugumi para voltar à cidade natal a fim de passarem uma última estada juntas. Ali, muito além de matar saudades da maresia e das caminhadas na areia com o cãozinho Poti, Maria viverá dias incríveis. Depois daquele verão, nada será como antes.

    Esse foi, na verdade, o primeiro livro que li dessa autora e comecei a leitura sem muitas expectativas. Para minha surpresa, a narrativa foi bastante fluida, e algo que gostei muito foi a forma como a autora constrói uma melancolia delicada, sem soar apelativa.

    Desde o começo, Yoshimoto consegue criar uma atmosfera de nostalgia que me chamou bastante atenção — mesmo eu sempre tendo vivido em uma cidade grande. As memórias de juventude vividas durante um verão, algo muito comum em histórias japonesas mais juvenis, me fizeram sentir como se eu também fizesse parte daquele momento. As lembranças de Maria com Tsugumi são narradas de maneira cuidadosa, mostrando não apenas os acontecimentos em si, mas também os pensamentos e sentimentos da narradora em relação à prima.

    Outro ponto que passei a gostar bastante no livro foi a própria Tsugumi. Confesso que, no início, não gostei muito dela — justamente por ser contraditória e difícil. Mas acredito que esse seja exatamente o ponto mais forte da obra e o que faz a narrativa funcionar tão bem. Tsugumi tem plena consciência de sua doença e encara o medo da morte, mesmo sendo desagradável em vários momentos.
    Talvez seja por isso que ela seja tão cativante. Sabendo que não tem muito tempo de vida, Tsugumi decide literalmente “meter o louco” e viver intensamente do seu próprio jeito, mesmo que isso acabe causando problemas para quem está ao seu redor. Ambos os lados — inclusive o de Maria — são muito compreensíveis. Em vários momentos da leitura, me peguei reagindo como a tia delas, observando tudo com uma mistura de preocupação e cansaço.

    Pelo livro ter um tom mais próximo da realidade, os personagens ao redor dela são, em geral, mais calmos e pacientes. Em alguns momentos, isso me causou certo estranhamento e até me pareceu uma representação do estereótipo de japoneses que muitas vezes temos no Ocidente.
    Ainda assim, essa escolha faz com que as temáticas da nostalgia e da morte se tornem ainda mais fortes. Por conta da condição de Tsugumi, é possível perceber como ela se prende ao passado enquanto precisa lidar com a possibilidade de não estar viva no dia seguinte. Mesmo assim, sua postura diante disso é diferente: ela não se vitimiza, não se deprime e aceita o próprio destino. E é justamente por aceitá-lo que decide viver intensamente até o fim. A narração em primeira pessoa torna tudo isso ainda mais impactante.

    Outro aspecto que gostei bastante foi a descrição das cenas. Como a história se passa em uma cidade litorânea, Yoshimoto constrói cenários repletos de natureza, fazendo com que a sensação — e até o cheiro — da maresia se tornem elementos marcantes. Também gostei do estilo mais poético da escrita; apesar de, em alguns momentos, isso ter me atrapalhado um pouco, mas nada que comprometesse a leitura. Inclusive, a leitura é rápida e para ser sincera, demorei mais para terminar de propósito.

    Em relação ao final, gostei muito da escolha feita. Foi diferente do que eu esperava, mas o fato de não haver uma grande reviravolta, e sim a sensação de que os personagens podem mudar tornou o encerramento ainda mais interessante.

    Ler esse livro justamente nesse período de fim e começo de ano me fez pensar ainda mais sobre como os pequenos momentos são importantes e como as relações são complexas. É algo muito pessoal, mas a leitura acabou me remetendo a lembranças com um dos meus avós — sobre aceitar a impermanência das coisas, das pessoas, e aprender a conviver com aquilo que não conseguimos mudar. Mesmo quando tudo muda, essas experiências continuam existindo em algum lugar da nossa memória. 

    Acho que foi uma ótima leitura para começar o ano.

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